Há muito tenho me acostumado com o sabor amargo entre os laços sempre tão insípidos de minha vida e o fato é que ultimamente tenho me encontrado somente em lugares obscuros, tão obscuros quanto os segredos que existem em mim...O sonho
Ontem, sonhei que voava sobre terras repletas de homens nus. Homens excitados e perfeitos, que esfregavam seus corpos incisivos uns nos outros com extrema volúpia e virilidade. Arrancos. Poses que faziam como artistas aprontados para a arte da libidinagem. Gestos e posições obscenas que faziam por instinto bárbaro ao crepúsculo insano e magnífico do paraíso. Precisas e perfeitas efígies do Éden, imagens vultosas e delirantes do império de Almodover; que se beijavam para selar o perdulário êxtase do ópio perfeito. Homens! Apenas homens! Invenções preciosas do mundo! De rostos gentis, entorpecentes e magníficos; de corpos arrebatadores, cínicos e tórridos. Via neles rostos supremos qual o de Narciso e corpos perfeitos como réplicas do deleite carnal e viril do deus Apolo. Olhares de deuses supremos e másculos sob o meu vôo! Império absoluto de néctar lascivo e convulsivo do quase amor!
Nessas terras aveludadas de masculinidade, viam-se verdadeiras porções paradisíacas do recanto perdido de Sodoma. Mas uma antítese se fazia. Um vôo biltre, incessante e alto me levava para longe das maravilhas. Afastava-me das minhas sensações tão excitantes, turbulentas e impudicas! Estava inseguro. Não podia resistir a corpos tão lindos, mas o vôo me levava para longe deles e das suas delicias. O vôo impossivelmente castiço e incessante tornava-me alheio à libidinagem e àquela traquinagem tão agradável e desviada. Doce é o sabor do pecado! O vôo e eu? Uma antítese!
Ao acordar minha mente martelou, fiquei confuso pensando a respeito. Confesso, porém, não ter chegado à conclusão nenhuma e este foi o grande defeito em mim; não chegar de modo algum à conclusão nenhuma. Mas a verdade é fato; e esse sonho que se deu como revelação doce, medonha e também velada, mexeu demasiado comigo.
Como pode um ser viciado em doutrinas devassas e entregue à própria lascívia vital que o rege voar como rei supremo e alheio sobre um mar de homens tão pulcros? O que de fato significa para mim, homem sem caráter e de escolhas duvidosas, esse sonho ameaçador e gentil? Questões que me atormentam e confundem! Assustam! E essas são de fato respostas impossíveis para uma mente obscena como a minha! Mente obcecada e gananciosa por prazer animal, mútuo e avassalador! O que consigo são somente divagações ordinárias a respeito, divagações estas, influenciadas pelo vicioso desejo que sinto e por minhas amoralidades de fundo romântico.
Esse desejo vicioso que me decreta viver sob o domínio de corpos inescrupulosos e ainda sob variadas sensações amorais me faz sentir como ser estrangeiro e psicótico nesse mundo apático e cheio de moralidades. Faz-me realmente ser o que sou: peixe fora d’água, borboleta saída do casulo e que voa inconstante sobre a completude fluida do nada. No entanto, também é ele que me conforta e dá motivos para minha existência errante e para meu caminhar libertino como arqueiro da liberdade, de uma deusa imaginária.
Admito! Tenho sonhos devassos sempre! Que homem não os tem? Mas ontem, eu confesso, senti-me estranho e com medo ao sonhar. Senti-me roçado por uma sensação muito máscula e erótica e que em seu interior revelava a sensibilidade e a beleza do prazer bem feito, mas que por outro lado, ao acordar, me fez sentir o peso incalculável da dúvida de estar no caminho certo. Senti-me como em orgias carnais, às boas orgias de carnavais passados. Mas não sabia mais (e não sei) até que ponto essas orgias bem quistas por mim me fazem voar e me libertam, ou revelam o medo de arremessos avassaladores. Arremessos tais como um tornado irado que me levaria de encontro ao mar rumoroso do amor. Eu temo o amor!
Eu sei que sempre se acaba no chão, despedaçado pela frustração e pela dúvida após o ópio do sexo coletivo, mas meu prazer frenético e extremamente masculino é o impulso que me integra ao mundo. Não saberia viver se não para me entregar às mãos dos homens, se não para sentir a volúpia deles. Meu alimento capital são seus corpos viris, suas mentes insanas pelo desejo do sexo proibido, seu sexo louco e depravado. Corpos tão análogos em busca do mesmo ópio, do mesmo prazer, da mesma loucura e delícia. E é por essa intensa luxúria que o medo do amor natural e conseqüente se ofusca. O deleite, o gozo mais que perfeito e culminante das pornografias o ofusca.
Eu nem sei explicar por que esse sonho boçal me fez questionar tanto a vida sexual depravada que levo e muito menos por que estou sentindo tanto medo dele. Acho que a sensação de voar, me lembrou a sensação inicial que o amor traz; sensação de liberdade, de contigüidade, mas eu sei que a sensação de seu fim é como o corte denso sobre a mais sensível pele e eu temo. Prefiro me limitar ao prazer máximo do sexo e me esquivar do dissabor do amor, da acidez de seu fim. Prefiro me atirar naquele mar masculino! Naquela quimera! Naquela orgia! Prefiro ser objeto na mão daqueles homens!
A última vez em que a paixão tomou conta de mim sentia-me como ser aprontado e completado pela vida. A beleza encantadora do mundo era minha! Sentia-me poderoso, rei quase absoluto. Seres eternos diante a pequinês do mundo, porque achávamos ingenuamente que tudo era perfeito e manter-se-ia assim. “Um vício romântico.”
Em sonho, Ícaro dera-me, sob o luar, seu céu de estrelas refletidas nos olhos sonhadores e maliciosamente tórridos de Cezar. Imperadores do reino mais claro e perfeito de todos! Imperadores da oblação de nossos próprios corpos! Reino próspero e perfeito que se estendia desde a primeira gota de saliva das bocas abusadas, até os cabelos despenteados de prazer, dourados do jubiloso sol que dele emergia. Reino enlevado que passava por membros firmes, por mãos abrasivas e pelo seu sexo alto, opulento e deleitoso. Todavia o ciclo da vida mostra-se terrível e implacável. Soube-se, de repente, que tudo tinha começo, meio e fim determinado. Fim terrível do qual não se pode de modo algum fugir. Desejos pueris rescindidos num melancólico sorriso.
(Leandro Moreira, Julho, 2003)

4 comentários:
Leandro!
Ao adentrar aqui, uma completa satisação, algo próximo de plenitude. Em sintonia, o título do blog alia-se a uma foto-esplendor, que convida para uma jornada interior.
Assim, através dessas palavras por você escolhidas, ou de outras que seus escritos gerem em nós, é que vamos!
Por isso, meu sincero cumprimento...
Desejo frutos de sucesso no seu blog.
Um abraço, prazer em encontrá-lo aqui,
Leonardo Valente (MG)
www.lioh.arteblog.com.br/
Leandro, sabe quando vc tem a sensação de ler algo completamente adequado para um momento seu? Foi o q senti lendo esse texto. É impressionante como a gente se perde procurando o q é melhor, ou mais prazeroso, ou o q é mais humano. Adorei o blog... passarei aqui com frequência...
grande beijos
www.nalavanderia.zip.net
paulaujs@hotmail.com
Leandro,nem sei dizer qual texto seu é o melhor, eu fiquei realmente na dúvida, mas o ópio da borboleta é tão excitante !! Amei, delirei e até quis ser a tal borboleta, rs
Você descreveu muito bem as sensações. Parabéns, lindo...
bjus e felicidades,
Bárbara.
Maravilhoso. Não a palavras que descreva o que sentir ao ler seu texto, confuso. Talvez seja está a palavra, mas, confuso por me ver como narrado quase que minha história ou aquilo que penso ser minha história. Quão palavras esplendorosa que define um sentimento ocultado pelo desejo de ser fiel ao mundo. Parabéns Leandro, alcançaste a plenitude nas palavras do chamado DESEJO.
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